Asma sumiu

Asma tinha a boca carnuda
que parecia fruta
tão suculenta
com ar de madura
mas a mim bastava admirar
como se fosse pintura

um dia Asma sumiu
de repente não tinha mais
foto no seu perfil
e as mensagens ganhavam
um tique só

ela era paquistanesa
e muçulmana
e divertida
e morava no Canadá

Asma era só o nome dela
(“it’s spelled Uh-sma, not asthma lol“)
mas me deixava sem ar

nunca mais vou ver Asma
nem ser caçoado por seu sarcasmo

sarcasma (ela riria disso)

O amor nos tempos do WhatsApp

como uma âncora o seu rosto
— óculos escuros e bikini —
afunda na guia de conversas
num mar de gente
que não sei como foi parar lá

leva com ele o seu nome
que habitava sempre o topo
desse aplicativo
que abro toda vez
que não tenho o que fazer

eu não quis excluir
o histórico
a história
quantos momentos de toda sorte
se encontram nesse museu de nós dois?

talvez seja de bom tom
fazer o backup para a nuvem
antes que me roubem o telefone
mas sabemos que as alegrias e tristezas
pesam bem mais que 25 MB

Gonzaga

eu odeio disputar calçadas
e panfletos que surgem nas mãos
e pessoas com pranchetas
pedindo um minuto de minha atenção

eu odeio a miséria do povo
de quem me interpela com sua falta
que pede comida, um troco
implora pr’eu comprar um pacote de fralda

eu odeio andar por entre os boxes
e virar o pescoço toda vez que alguém
me pergunta o que eu procuro
“o que eu procuro você não tem”

eu odeio as velhas viúvas
com bandeiras do Brasil na sacada
de prédios côncavos reclamam
quando a elas não falta nada

eu odeio não achar vagas
e detesto o trânsito insano
bom negócio mesmo deve ser
ter um estacionamento na Floriano

eu odeio tudo nesse bairro
e pode até parecer piada
apesar de todos os pesares
eu gostar tanto do Gonzaga

Há dias

há dias em que sou folha ao vento
há dias em que sou puro tormento
há dias em que sou brisa leve
há dias em que sou pedra no sapato

há dias que sofro
e há dias adio
o inadiável
adiós

há dias em que sou mosca na sopa
há dias em que sou água fresca no calor
há dias em que sou o fundo do poço
há dias em que sou luz no fim do túnel

há dias em que sou tudo junto
há dias que simplesmente não sou
e é nesses dias de não ser
que descubro que sou o que restou

Sinal aberto

as luzes do semáforo
emparelhadas nos fitam
sempre verdes
embora supostamente
deveriam se alternar
eventualmente
para cores mais quentes
e menos permissivas
aqui onde tudo começou
e onde tudo se encerra
ou se suspende
— depende
se vermelhas
ou amarelas

talvez o problema
seja que o sinal
esteja sempre aberto
para nós
(que somos jovens)
e em meio ao breu
esse verde severo
aterroriza com sua
irrestrita liberdade
mas enquanto permanecem
verdes as luzes
só nos resta
seguir
até onde se con-
se-
guir

Encontros vocálicos

Para o ZONA! / O Coletivo

o canto da sereia
deitada na proa
da catraia
ecoa
pelas galerias
subterrâneas
disputa com a covardia
do motor, engrenagens, óleo

sob seu véu
tudo é etéreo
um tanto quanto sério
embora os respingos d’água
(e o canto que ainda ressoa)
na pele façam arrepio

o mar reflete a lua
e as luzes do cais
e uma cidade que não é mais
aquilo que outrora seria
(de sonho e fantasia)
todavia
há que se retornar ao chão
voltar ao território
povoado de memórias
tragédia, glória, ilusão

pense só uma projeção
em que se sobrepõe
toda construção
de todos os momentos da história
se sobrepõe toda pessoa
que por aqui já passou

neste cenário
tudo que poderia
aconteceria
e dentre as múltiplas ocasiões
e ideias
é no mínimo um fascínio
pensar que é aqui
em dois mil e dezesseis
junto a vocês
e ao canto da sereia
que ainda se ouvia
que eu estaria

Sublimação

causa dor pela dor
sem porquê, nubla o céu
atentar contra o amor
é o crime mais cruel

sua loucura transborda
muito além do seu ser
se seu ódio incomoda
guarde-o todo pra você

miserável machista
desgraçado imbecil
respeito a raça canina
mas seu lugar é no canil

sem razão tu te perdes
fere até quem diz querer
então vê se não te metes
bem melhor pra ti vai ser

no divã ascende à cura
apura o jeito que tu vês
porque se a vida não é tua
tu não tens que te meter

porco imundo babaca
inseguro, frágil ser
logo menos cai tua casa
e tu nem vais perceber

baixa o dedo e a voz
se quer continuar a viver
nessa de querer ser algoz
quem vai pra forca é você