Gosto do cheiro

Caríssima Srta. Quem,

Não sei por mais quanto tempo isso irá durar, mas ainda vem, uma ou duas vezes por dia, o cheiro da sua boca ao meu nariz. Talvez não seja o cheiro da sua boca, não só. Talvez seja o cheiro da sua boca, de tudo que você bebeu e comeu, da sua pele, da sua maquiagem, do seu perfume — seu cheiro. A essa altura você já sabe o quão facilmente sou fisgado pelo olfato. O olfato, assim como o paladar, são os sentidos mais animalescos que temos, acredito. Memórias impressas e fichadas numa biblioteca enorme de gostos e aromas. E por que é o cheiro da sua boca que de repente sinto, mesmo estando alguns quilômetros distante de você? Falha orgânica? Algum tipo de dom sensitivo? Abstinência.

Você já teve tantos cheiros, Srta. Quem, que é difícil escolher um favorito. Mas tendo a acreditar que este seja o melhor, porque ainda está vivo em mim. Talvez existam algumas moléculas do cheiro da sua boca remanescentes em minhas narinas, ativando quimioceptores cada vez que inspiro; como a brasa de um cigarro, avivada a cada tragada. Ou talvez seja só uma memória — talvez nem tão fiel aos fatos — composta de todos os sentidos possíveis, implorando para ser revivida, me empurrando à tentativa da repetição de um padrão, como um quadro que precisa ser precocemente restaurado.

Estamos tão próximos e ao mesmo tempo tão distantes. E essa frase pode ser entendida de diversas formas, mas no seu caso é bastante literal. Proximidade física, social; e uma distância de uma dimensão desconhecida, que nada tem a ver com a razão ou com motivos lógicos. Vizinhos pertencentes a mundos afastados. Abstraio para fugir da aceitação de que esse cheiro da sua boca que repentinamente me assalta me traz intensidade inusitada. Nunca vem sozinho, mas acompanhado da imagem de um sorriso — de lábios e olhos — quase demente; de um calor específico, preciso, minha temperatura ideal de funcionamento; de um delicioso ímpeto que não encontra palavras no dicionário capazes de descrevê-lo. Ímpeto é a palavra. O fato é que não se trata somente do cheiro, mas de um todo tão grande que é inapreensível.  Talvez isso seja minha inexperiência e tolice, mas aí já são suposições. Fato é aquilo que acontece. Mas nos tornamos mestres em fingir que nada aconteceu.

É você, senhorita Quem? É você, senhorita? Quem é você, senhorita Quem? É você, senhorita. Quem?

Dente-de-leão

Querida Srta. Quem,

Gostaria que você finalmente acreditasse que o que escrevo não diz nada sobre mim. Ficaria muito feliz se você acreditasse nessa bobagem chamada “eu-lírico”, atrás da qual tantos escritores se esconderam através dos tempos. Mas a verdade é que não há eu-lírico; não se pode escrever sobre algo que não existe em você, e a senhorita não deixa nenhuma manifestação gritante de quem sou ou do que sinto passar despercebida por minhas linhas. Se, por um lado, você acaba por conhecer meu íntimo como poucos, por outro me sinto indefeso diante do seu olhar, que parece localizar, tal anatomista, em cada canto da minha alma tudo o que já escrevi.

Sabe que por vezes tento disfarçar minhas verdadeiras inspirações mudando um nome, modificando de leve um acontecimento para poder chamá-lo de ficção. Mas você sempre sabe tudo, conhece os bastidores de cada estrofe minha, talvez até melhor do que eu. Deslocar, sublimar, condensar; nenhum método, consciente ou inconsciente, consegue esconder de sua leitura atenta o que se passa comigo. E, no final, não existem personagens ou mundos fantasiosos, é tudo sobre mim.

Queria, ao invés de lhe mandar esta carta, soprar um dente-de-leão da minha janela, para que aquelas pequenas sementes chegassem até você, e que isto bastasse. E bastaria, pois sei que você examinaria cada uma delas, presas em seu cabelo ou flutuando em seu quarto numa manhã de domingo, e leria nelas as mesmas palavras que constam nesta carta. Optei pela carta porque esta não corre o risco de ser desviada pelo vento e chegar a outra pessoa que não veria nestas palavras nada além de pequenas e leves sementes jogadas ao vento.