Asma sumiu

Asma tinha a boca carnuda
que parecia fruta
tão suculenta
com ar de madura
mas a mim bastava admirar
como se fosse pintura

um dia Asma sumiu
de repente não tinha mais
foto no seu perfil
e as mensagens ganhavam
um tique só

ela era paquistanesa
e muçulmana
e divertida
e morava no Canadá

Asma era só o nome dela
(“it’s spelled Uh-sma, not asthma lol“)
mas me deixava sem ar

nunca mais vou ver Asma
nem ser caçoado por seu sarcasmo

sarcasma (ela riria disso)

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Guerra civil

O poeta não sabe como reagir quando o malandro se senta à mesma mesa que ele. Olha ao redor e vislumbra um salão vazio, com mais de dez mesas desocupadas. Vagarosa, mas objetivamente, comenta: “você sabe que há diversos outros lugares livres, não é?”. O malandro fita o poeta com um esquisito brilho nos olhos e responde: “mas eu quero me sentar aqui”. Sem a vocação para o embate, o poeta se levanta de seu assento e procura outro lugar para ficar. Encontra uma cadeira onde se assenta e de onde não pode ver o malandro. Gostaria de esquecer ou ao menos poder ignorar sua presença no ambiente.

Isto, contudo, não se demonstra possível. Com o olhar fixo no poeta, o malandro vem sentar-se de frente para ele e só então o jovem de coração inocente compreende a mensagem: não há lugar ali para os dois. Sorri nervoso para o malandro e se levanta novamente, desta vez indo em direção à saída do lugar. Aperta o passo ao perceber, às suas costas, a movimentação do malandro. Já no estacionamento do lugar, percebe a proximidade de seu perseguidor e gira nos calcanhares. Mal se completou a meia-volta e o malandro desfere um murro no rosto do poeta, que cai sem jeito no chão de asfalto. O estacionamento está vazio, à exceção de uns poucos veículos. O poeta se levanta e se posiciona em patética posição de combate. Não lutava desde a 7ª série do Ensino Fundamental. E seu adversário esbanjava muito mais preparo que si. Uma arma poderosa. Mas manifestava muito mais ódio. Um ponto fraco.

Partiu o malandro para cima do poeta, desferindo chutes, pontapés e socos de todas as direções. O bardo se defendia como podia, protegendo a cabeça, o ventre e as partes baixas com movimentos desajeitados. No combo de insanidade com que o malandro atacava o poeta, ambos se deslocavam em direção a um velho carro verde que aparentava estar no estacionamento há semanas. Em um movimento de puro instinto, o poeta consegue desviar de um golpe desferido e fazer o malandro bater com a cabeça na porta do veículo. Aproveita os instantes de tonteira do agressor para lhe passar uma rasteira e enchê-lo de chutes e pisões.

O malandro, agora em posição desfavorável e sem conseguir levantar-se, rasteja até um carro preto próximo, que o poeta assumia lhe pertencer enquanto chutava-o e pisoteava-o incessantemente. O malandro conseguiu alcançar a maçaneta da porta do passageiro e abrí-la. Burburinhos e passos apressados indicavam que já chegava gente para verificar o que se passava, e considerando que o malandro tentava fugir em seu carro, parou os ataques e apressadamente se dirigiu à avenida. Era inusitado, mas o poeta parecia menos ferido que o malandro. Mas este não havia terminado ainda. Enquanto populares se aproximavam para socorrê-lo, alcançou o porta-luvas (estando ainda jogado no chão) e dele retirou uma pistola. As pessoas ao seu redor se assustaram e começaram a correr e gritar. O poeta se vira e vê o homem de rosto ensaguentado apontando a arma prateada em sua direção. Ouve um estampido e sente a bala perfurar-lhe o flanco direito. Urra de dor e grita, enquanto corre, procurando abrigo atrás de uma pilastra. Outro disparo, mas este não parece tê-lo acertado. Mas novamente por instinto, o poeta se joga no chão e finge-se de morto. Os tiros cessam. Um homem chega e desarma o malandro. Gritaria, sirenes, buzinas. O poeta fecha os olhos e começa a duvidar se de fato fingia sua derrota ou se, na verdade, lançava-se aos braços da morte.

***

Não tão longe dali, a guerra seguia violenta noite adentro. O Exército da Sensibilidade fazia trincheira nas memórias alegres, disparando rajadas de cuidado, carinho e paciência. Estas pareciam apenas atrasar, mas não ferir, o Monstro da Indiferença. É de se supor, por seu nome. Uma arma de defesa extremamente poderosa, que agora se voltava contra a própria terra que deveria defender. Havia sido capturado por forças estrangeiras que ambicionavam a implantação de uma sociedade egoísta, regida pelo princípio do prazer, onde gozar seria obrigação cívica dos cidadãos. O Exército da Sensibilidade opunha resistência, com seus princípios altruístas e de preservação das instituições e das relações, hasteando a bandeira da abnegação em nome do próximo. Um verdadeiro embate ético, e que só trazia prejuízos à nação disputada, transformada progressivamente em destroços. E a divergência, individualizada pelos cidadãos, só provocava mais mortes, como a (possível) do poeta.

Talvez sua estratégia funcione e, ao se fingir de morto, possa retornar com mais força e dominar seus surpresos opositores. Talvez não, e ele apenas busque prolongar sua vã existência num país devorado aos poucos pelo Monstro da Indiferença. Continua?

O amor é um livro

Amar é como mergulhar de cabeça em um livro. O interesse por alguém começa pela capa, que desperta mais ou menos a vontade de conhecermos o conteúdo de uma obra. Pouco se sabe dela enquanto estiver fechada na estante, se será aventura, drama, comédia, romance ou terror. É preciso abrir e ler para saber. E logo você se verá rodeado por personagens e conflitos inéditos, sentirá coisas que nunca sentiu antes. O ato de ler e o de amar são constituídos pelo mesmo fundamento: a afetação pela alteridade. Enquanto nos deliciamos por algumas passagens, noutras correremos os olhos pelas linhas buscando o fim da tormenta. Cada página virada é uma surpresa. No entanto, diferentemente dos livros, essas histórias que são os amores têm um benefício: além de leitor também se é coautor.

Preferido x Preterido

Certa vez me foi permitido enxergar através das formas e para além da superfície das coisas, e descobri que os toques têm cores, os cheiros têm sons e que os sentidos só são representados separadamente por nossa limitação orgânica. Descobri que os fonemas e suas sílabas equivalentes são como moléculas e que uns têm mais afinidade entre si do que outros. Basta notar que há músicas e frases que soam melhores do que outras, para além da mensagem que carregam; caem melhor aos ouvidos, pois seus fonemas estabelecem relações mais fortes entre si. E assim como na química, uma simples molécula pode diferir absolutamente uma substância de outra. “Preferido” e “Preterido”, “Amado” e “Armado”, “Respeito” e “Despeito”: como diferença entre estas palavras-substâncias, há apenas uma molécula-fonema e um abismo de significados. Remédio e veneno estão mais próximos do que se supõe.

O aniversário de um poeta

A única resposta para um texto desse é um abraço, que não pode superar os milhares de quilômetros e nem pode ser enviado em kilobytes por ondas, cabos e satélites. (A)guardo o abraço, portanto.

Canta, passarinho!

(para Lucas Delfin, que, coincidentemente, nasceu nessa data)

Passa(ran)do por diversos voos e muros, de repente nos encontramos crescendo juntos. Veja bem, para se fazer algo junto, não há a necessidade de se estar fisicamente ao lado da criatura, apenas que a ação seja a mesma ou/e complementar. E complementamos o voo um do outro por meio de pequenas doses de leveza, sabedoria e felicidade que gostamos de plantar numa conversa boba que parece sem pé nem cabeça nesse meio de comunicação estranho e útil que é a internet. E complementamos o voo um do outro com grandes doses de poesia e de amor que invisivelmente ultrapassam a tênue linha que separa a internet do mundo real e acabam por transformar a vida minha e sua quase tão delicadamente quanto numa dança.
Há algum tempo desde que escrevi algo pela última vez, mas sabes tão bem quanto eu que existem…

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Inimigo secreto

Ele aparece somente quando ela não está. Mais do que coincidência, isto denota uma de suas principais características: a covardia. Chega sorrateiro e sem pedir licença se acomoda perto de mim. Não adianta enxotá-lo, ele vem quando quer e vai embora apenas quando se cansa de brincar comigo. Muitas vezes caio em suas provocações, o que apenas o incentiva a continuá-las e a voltar mais e mais vezes. Em dias mais serenos, consigo ignorá-lo ou vencê-lo em seu próprio jogo, e então ele se irrita e vai embora mais cedo. Ele sempre chega dizendo coisas que não quero ouvir, sugerindo ideias que eu não quero pensar. Nossa convivência é difícil e muitas vezes já desejei dar-lhe um murro na cara, mas algo me impede. Talvez seja o receio de ferir minha mão nos cacos do espelho.

Saúdes frágeis

Eu nunca estive tão doente quanto em 2015. A garganta se inflamou duas ou três vezes, tive minha primeira fratura óssea (ainda que pequena), intoxicação química por tinta que me rendeu a sensação de estar morrendo, resfriados que me derrubaram por alguns dias, febres, cansaço generalizado, alergias… Isso tudo me estranha, já que desde sempre uma das certezas que eu afirmava sobre mim é que tinha boa saúde. Nos tempos de escola, faltava por motivos de saúde uma, no máximo duas vezes ao ano. Nunca fui internado num hospital por qualquer motivo. Apenas este ano já perdi as contas de quantas vezes fui a pronto-socorros. Por minha criação, sempre fui medicado com homeopatia. Mas este ano não sei quantos antialérgicos, antibióticos, antitérmicos e tantos outros medicamentos me invadiram as veias e as vias.

Quando penso em meu ano até agora há muita doença, mas, ironicamente, muita vida também. As escolhas que tomei — e mais do que estas, as que me tomaram — me injetaram um fluxo de vivacidade e de disponibilidade para os encontros (comigo mesmo, inclusive) que chega a assustar. Assusta pois até pouco tempo atrás eu guardava a obsessão de manter todas as coisas da vida em seus devidos lugares, separadinhas, encaixotadas, gerenciando até os acontecimentos mais aleatórios para que nada desandasse do meu agrado. Sempre tentei produzir ordem no absurdo que é a vida. Bem, mais cedo ou mais tarde eu haveria de perceber que não só isso era impossível como também não parecia tão saudável assim, apesar de me considerar extremamente saudável numa perspectiva mais restrita.

Quando me dou conta disso e estabeleço esta relação entre doença do corpo e disponibilidade para a vida, não posso evitar de lembrar de um professor que tive nos primeiros anos da faculdade. Ele dizia — e eu não lembro o contexto — que a vegetação das cavernas parecia bastante estável, consolidada, segura que estava debaixo de toneladas de rochas. Dentro da caverna a vegetação não está exposta ao sol, à chuva, ao vento, e a outras intempéries. No entanto, basta passar o dedo pelo musgo que se acumula nas paredes das cavernas para verificar que ele facilmente se desprende destas. Uma falsa estabilidade. O que, no final das contas, parece óbvio: se não há ameaças e interferências, não há porque produzir forças.

A ideia de saúde como sinônimo de homeostase, equilíbrio, não só é ensinada nas universidades como também é vendida nas prateleiras das farmácias. Demora um pouco, mas logo a gente aprende que esse tão aclamado equilíbrio tem mais cheiro de morte do que de vida. E entre acessos de tosse e inflamações da garganta, entre febres e alergias, vou vivendo.