O mérito de ‘3%’

Não pude evitar o trocadilho no título. Em compensação, este texto não contém spoilers de ‘3%’. Pode continuar sem medo. Ah, mas tem spoiler do episódio White Bear, de Black Mirror. Na verdade, talvez só dê pra entender este texto plenamente se você tiver assistido esse episódio. Sei lá, só vem.

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‘3%’ estreou em novembro como a primeira série brasileira da Netflix. A expectativa era grande, não só por este motivo, mas também pela premissa do seriado. ‘3%’ nos apresenta um Brasil “futurista”, no qual a imensa maioria da população sobrevive em condição de pobreza, em cidades que muito se assemelham às favelas e aos centros deteriorados das grandes cidades. Há apenas uma esperança para mudar de vida: passar no Processo e juntar-se à parcela mínima da população que tem direito de viver no Maralto, uma ilha no nordeste brasileiro onde se tem acesso a saúde, bens de consumo e a uma vida de qualidade.

Para isso, no ano em que completam 20 anos de idade, jovens de todas as partes do país, etnias e condições físicas e mentais participam do Processo, que visa selecionar — dentre a multidão — os 3% mais aptos a ascender ao Maralto. Há entrevistas de seleção iniciais nas quais aspectos psicológicos e emocionais dos candidatos são testados, uma peneira. Depois disso, se sucedem inúmeras provas para testar sua resistência, capacidade de liderança, pensamento lógico e outros atributos. Enfim, não vou gastar muito do meu e do seu tempo discorrendo sobre o contexto da série. Você pode assistir ao trailer aqui, e, se tiver uma conta na Netflix, recomendo que reserve algumas horas do seu verão para dar uma atenção a ‘3%’.

A questão é que ‘3%’ me decepcionou. Assisti ao primeiro episódio e já me colocava a criticar a série junto aos amigos. Narrativa acelerada demais, muita informação no primeiro episódio, atuações fracas, falas óbvias e superficiais… Palavrões em demasia, que, na tentativa de tornar os diálogos um pouco mais naturais, me faziam achar que estava assistindo a uma versão bad boy de ‘Malhação’ ou ‘Ilha Rá-Tim-Bum’. Não hesitei em apontar todos os defeitos que identifiquei, e logo percebi que “a internet” (essa entidade do contemporâneo) se dividia entre aqueles que, como eu, acharam ‘3%’ pobre, e aqueles que buscavam evidenciar suas qualidades, e de certa forma proteger a produção da crítica pelo fato de ser a primeira série brasileira na Netflix e argumentos afins. Passar um pano, a meu ver. Mas, apesar de todos os pesares, o primeiro episódio produziu em mim vontade suficiente para que eu assistisse o próximo. E o próximo. E o próximo. Até que, no quarto, a coisa começa a ficar mais interessante.

Uma das principais críticas que faço (ou fazia) a ‘3%’ é sobre a série ser excessivamente “didática”. Parecem querer ensinar a uma criança de 9 anos que a lógica meritocrática do Processo é uma grande furada, e que o ordenamento societário que se apresenta é definitivamente podre (embora tal percepção não seja compartilhada pela maioria dos personagens da série). E para mim e para a maioria das pessoas do meu círculo (ou bolha): desconstruidões, de esquerda, acadêmicos e críticos, esta pegada quase pedagógica acaba por se tornar uma falha estética. E assim eu pensava, até ter a brilhante ideia de assistir Black Mirror com meus alunos de 14 anos.

(Uma rápida contextualização. Dou aula de inglês em uma escola de idiomas. De vez em quando ficamos — às vezes eu, às vezes os estudantes — de saco cheio do livro da escola e da metodologia e assistimos a algum filme, desenho ou seriado para quebrar um pouco a rotina).

Optei pelo segundo episódio da segunda temporada. White Bear. Um dos meus favoritos. Mas a escolha foi mais orientada pela duração mais curta em relação aos outros do que por qualquer outra coisa. Na expectativa de tornar o momento de descontração também em um de reflexão, apaguei a luz, liguei o projetor e dei o play. Fast forward, vamos ao que interessa. A reação deles ao episódio foi diametralmente contrária àquela que eu esperava. Já durante o episódio, eu ouvia os comentários dos jovens de 14 ou 15 anos. Anotei algumas das frases que disseram entre si e para mim, ao final. “O Brasil bem que podia fazer isso, mas os direitos humanos não deixam”, “por que não matam ela logo?”, “o final é o melhor, quando ela fica gritando”, “só tenho dó só dos caras que precisam remontar o cenário todo dia”.

Eu poderia escrever parágrafos sobre cada uma dos comentários. Tentei argumentar e questioná-los, mas a maioria permaneceu em suas posições de admiração pelas práticas punitivas e espetaculares retratadas em White Bear. O tiro saiu pela culatra, e o que era para ser uma oportunidade de discussão crítica, para a maioria deles se tornou apenas entretenimento e devaneios sobre um futuro possível e até desejável. Isso porque eu considerava, até então, a montagem narrativa de Black Mirror impecável, fazendo com que a reflexão crítica fosse inevitável. Novamente, é hora de rever meus conceitos.

E é aqui que voltamos a ‘3%’. É aqui que os defeitos se tornam qualidades. Ainda mantenho os problemas que elenquei sobre a série, mas retiro aquela que diz respeito a “obviedade” das reflexões sobre meritocracia. Talvez a crítica de Black Mirror pareça óbvia para mim, mas para outras pessoas certamente é sutil ou mesmo imperceptível. Da mesma forma, sou levado a pensar que a crítica de ‘3%’ pode parecer rasa e simplista para mim, mas que, para outras pessoas, é a abertura de uma porta de reflexão e debate que até então se encontrava cerrada.

Black Mirror não é sobre o futuro (até hoje não encontrei tempo e inspiração pra escrever sobre isso). ‘3%’ tampouco. A pauta da concentração de riqueza foi encabeçada (mais evidentemente) desde 2011 por movimentos como o ‘Occupy Wall Street‘. Em 2016, pela primeira vez, 1% da população mundial detém a mesma riqueza que os outros 99%. Então não estranhe o universo (e o título) da série brasileira, julgando-o um exagero. ‘3%’ é agora, é uma realidade em iminência e que tende a se agravar mundialmente e em especial no Brasil. Medidas do governo Temer, como a PEC 55, que congela os gastos públicos por 20 anos, revisões na aposentadoria e tentativas de ataque aos direitos trabalhistas, tendem a piorar o panorama a curto prazo (com longas consequências, sim).

Por isso, é necessário abrir mão da exigência estética e do refino narrativo para evidenciar as potencialidades éticas de ‘3%’. Black Mirror é excelente, continua sendo minha série favorita desde 2014, mas não dialoga com um público tão amplo quanto ‘3%’ é capaz de fazer. E talvez eu seja burro demais por só ter me dado conta disso agora. Pois é, acho que eu não passaria no Processo.

 

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Fogo amigo (ou, “Por que apoiar as ocupações”)

Os governos temem as ocupações. A mobilização do aparato jurídico, midiático, político e militar é prova cabal disso. E se tudo que há de mais podre está contra você, há nisso um prêmio gratificante: você está no caminho certo.

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O Ministério da Educação adiou a realização do ENEM para os candidatos que fariam as provas nas escolas e universidades que se encontram atualmente ocupadas por estudantes que protestam contra a PEC 55 (ou PEC 241. Ou apocalipse, como queira chamar) e contra a reforma arbitrária e emburrecedora proposta para o Ensino Médio. A Rede Globo iniciou uma campanha descarada, em aliança com o MEC, para jogar a sociedade e os candidatos ao ENEM (sua maioria estudantes do ensino médio) contra aqueles que ocupam as instituições de ensino. Mesmo aquelas que não são e nunca foram local de aplicação do ENEM tiveram sua ocupação desmoralizada pela mídia tradicional através desta mesma prerrogativa, como foi o caso do edifício central do Campus Baixada Santista da Universidade Federal de São Paulo, ocupado desde a última quinta-feira (3).

Esta propaganda incisiva consegue inverter a situação de tal maneira que a Globo seria capaz de vender o meteoro para os dinossauros. Mas é claro que, se posta à prova, a lógica que a mídia tenta impor não se sustenta. Afinal, não é pela educação que ocupamos? Mesmo pessoas suficientemente informadas têm se posicionado contrárias às ocupações, por divergências ideológicas, mas muitas vezes metodológicas. Aí talvez resida o maior perigo: compartilharmos o mesmo inimigo comum, mas por discordarmos da estratégia, empenharmos mais força contra os companheiros e companheiras de luta do que contra aqueles que querem acabar com um projeto de país que nunca pôde se efetivar.

Um estudante de Serviço Social (!) de uma universidade federal que não só se coloca contrário à ocupação de sua universidade, mas brada “desocupa” e “invasão” é um sintoma (um sintoma, decerto, mas não uma exceção isolada). Indica que a universidade pública vem falhando em cumprir seu papel educativo que transcende à sala de aula e os laboratórios. Quem se posiciona a favor do congelamento dos investimentos públicos por vinte anos em áreas fundamentais como a saúde e a educação, é uma de duas coisas: mal-informado ou mal-intencionado. E a má-intenção pode ser explicada por um privatismo que nos coloniza aos poucos, que aumenta geração após geração de estudantes. Ora, se uma instituição pública de ensino não oferece moradia estudantil, tem bolsas de permanência absolutamente irrisórias e bolsas de extensão e pesquisa insuficientes em número e em valor, aos poucos, só continua estudando quem tem dinheiro. Assim, o público vai se tornando progressivamente privado. Não por decreto, mas pela deteriorização das condições de acesso e permanência. E isso inflete nas demandas e capacidades de mobilização de seus estudantes, cada vez mais acomodados, que em breve podem ter que pagar (julgando necessário e, portanto, justo) por mais e mais pós-graduações, matrículas, e, quiçá, graduações também. Prova disso é quando um colega que paga por um curso de especialização (numa universidade pública) alega, em uma assembleia de ocupação, que ele ajuda a sustentar as graduações gratuitas. Ninguém comentou este aspecto de sua fala. Talvez porque tal lógica já pareça natural. O privatismo nos escava por dentro, como um cupim.

Alckmin declarou que os estudantes que ocupam escolas em defesa de educação pública de qualidade prejudicam aqueles que querem estudar. Sabemos que a situação é o extremo oposto disso. É por querem que cada vez mais pessoas possam estudar em escolas e universidades públicas e de qualidade, que ocupamos. Do alto de seu cinismo, aquele que propôs o fechamento de salas, demissão de professores, cortes de verbas para a educação, aumento da razão aluno/sala, entre outras propostas apresentadas de forma arbitrária, tenta inverter os papéis um ano depois. Alckmin é contra? Mais um motivo para ser a favor.

A estratégia das ocupações surge, no contexto do ensino superior federal, após longos anos de contínuas e desgastantes greves (todas em governos do PT, antes que alguém diga que se trata de mera oposição política). Voltando para o cenário local, da UNIFESP Baixada Santista, as greves progressivamente tornaram-se (por sua frequência e talvez pela organização do movimento estudantil) ineficazes e também desgostosas para grande parte dos estudantes. A realidade era que, uma vez declarada greve, cada um voltava para suas cidades natais como se fossem férias fora de época. Trocava-se a estagnação de uma rotina automatizada pela estagnação do repouso. Com as ocupações, ocorre uma mudança de paradigma: a estagnação das greves é substituída pelo dinamismo e pelo movimento. Ocorrem articulações com sindicatos, movimentos sociais, partidos e habitantes do território local. Toma-se nas mãos as responsabilidades de cuidar do público e de cada um, o que é uma virada significativa, considerando a lógica de relação serviço-consumidor que predomina entre muitos estudantes de universidades públicas. É vida. E a vida é aquilo que acontece quando ousamos desacelerar o passo, quando nos atrevemos a olhar para o lado e ver nos olhos aqueles que nos cercam. Quando interrompemos o fluxo incessante do habitual, alteramos nossos níveis de atenção. É outra presença, é outro ser e estar na universidade e com o outro.

A partir do momento que as polícias, estas sim, invadem escolas ocupadas sem mandado judicial; a partir do momento que estudantes são presos e professores e até o reitor da UFRJ são ameaçados; a partir do momento que um juíz autoriza corte de energia, água e alimentos e uso de aparelhos sonoros para impedir o sono dos que ocupam uma escola no DF, precisamos nos posicionar. Mesmo aqueles que não concordam com a ocupação enquanto estratégia de luta precisam se posicionar. Mesmo aqueles que são a favor da PEC 241/55 precisam se posicionar. Porque a perseguição política é enorme, mas o diálogo é nulo. E em uma suposta democracia, isso é inaceitável. Então, convido todos e todas a conhecerem ocupações perto de suas casas. Convido a prestarem atenção no discurso da mídia. E convido, em especial, os colegas que estão no mesmo barco furado que nós, a meditarem e reconhecerem quem é o seu real inimigo, e para onde devem canalizar suas energias neste momento. O fogo amigo é o mais triste de qualquer guerra.

Bananas

Sei sobre bananas apenas o fundamental: a maçã na verdade é banana mesmo, a nanica é enorme, e se a casca estiver minimamente esverdeada, é melhor não comer. Banana tem que estar amarela. Agora, se é ouro, prata, bronze, eu já não sei diferenciar. A menos que estejam num pódio. Mas é bobagem saber tantos detalhes, o que se deve saber eu sei: pegar uma banana, descascá-la e comê-la. Não tem segredo, bananas são fáceis. O Maroon 5, em sua música Sunday Morning, poderia trocar a letra por “easy like a banana”. Afinal, elas não têm caroço e descem em qualquer pescoço. Falando nisso, que história é essa de chamar as pessoas de banana como sinônimo pra covarde ou paspalho? Prefiro ser um banana a um abacaxi azedo e espetudo. Em inglês, “bananas” é alguém louco. Mas deveria ser um sinônimo de “easygoing”. É muita injustiça semântica contra esta democrática fruta! Há quem saúda a mandioca. Eu saúdo os bananas, tanto os covardes quanto os loucos. Eu escolho o lado de vocês e de sua simplicidade. Na verdade, eu gostaria de ser mais banana. Todo mundo deveria tentar ser mais banana, por uma convivência mais tranquila e com menos cãibras.

Corrupção, ideologia e racionalidade

Corrupção é a palavra da moda. Presente nos discursos da direita golpista, da base governista, e até de parte de uma oposição mais à esquerda também. A corrupção tá na boca do povo. Diretores da Petrobras e de grandes empreiteiras sendo presos, bem como operadores de esquemas dentro do governo federal. O PT é acusado pelas massas de verde-e-amarelo de ser um partido corrupto. Em contrapartida, militantes do partido e de outros à esquerda denunciam que Aécio, Alckmin, Fernando Henrique Cardoso e outros nomes do PSDB são investigados ou já foram desmascarados em esquemas de corrupção tão ou mais graves quanto o que a operação Lava Jato investiga. Tudo se resume, aparentemente, a uma disputa para ver quem é o menos sujo dentre os mal-lavados.

Corrupção é o ato ou efeito de corromper, ou seja, através de dinheiro, poder ou favores, corromper a outrem. Corromper alguém tem o peso de macular o sagrado, romper o lacre da ética que tranca a caixa dos mecanismos politico-administrativos, desvirginar. “O homem nasce bom, a sociedade é que o corrompe“, dizia Rousseau. A corrupção, portanto, pressupõe uma pureza essencial anterior a ela, a qual todos os seres humanos possuem. Tal ideia provavelmente encontra reverberações na teoria criacionista da centelha divina, segundo a qual todos seríamos inicialmente ou potencialmente perfeitos, partes de Deus e portadores das mesmas características que Ele. Não cabe agora discutir se somos feitos do barro, da costela de um fulano ou do pó das estrelas, mas cabe, sim, percebermos que há um ideal de homem e de sociedade atravessado por valores como a bondade, a justiça e a honestidade que coloca a realidade sempre em dívida em relação a estes parâmetros imaginários. Um ponto de partida importante seria reconhecermos que o mundo nunca foi e talvez nunca venha a ser um lugar perfeito.

O segundo ponto seria perceber o quão vaga é a palavra corrupção, que não paramos de repetir. Um veículo midiático mais alinhado ao atual governo denuncia que Aécio Neves teria, nas manifestações de 16/08, estacionado o carro em um local proibido. Outras acusações contra o senador, tido por parte da militância petista como o maior problema do Brasil no momento, são de dirigir sem carteira de habilitação e de usar cocaína. Tais acusações visam meramente desmoralizar o político, indicando que ele não teria direito de julgar a índole de ninguém. Novamente, o que se vê aqui é a corrida por uma moralidade ideal. O mesmo se aplica àqueles que equiparam desvios milionários de verbas públicas a pequenas atitudes do cotidiano como furar uma fila, como se falássemos da mesma corrupção aqui e ali. É óbvio que quando manifestantes lotam as avenidas das capitais do país gritando contra a corrupção — embora muitos de forma absolutamente fora da realidade — não estão pedindo o fim dos pecados morais da humanidade. Estão bradando, ainda que extremamente direcionados pela mídia e por alguns partidos oportunistas, pelo fim do uso da máquina do Estado, da coisa pública, para beneficiamentos particulares.

Em 16/08, numa das fotos bizarras das manifestações contra o governo Dilma, é possível ver um cartaz no qual se lê “Eduardo Cunha também é corrupto, mas está do nosso lado”. Por mais improvável que tais dizeres possam parecer, eles apenas evidenciam que denúncias — comprovadas ou não — de corrupção não são suficientes para mudar a opinião de uma pessoa ou de um grupo sobre um personagem político. Pautas que poderiam efetivamente cercar os tão criticados esquemas de corrupção, como o fim do financiamento empresarial de campanhas e partidos passam ao largo das reivindicações da massa colorida e coreografada. Parece que quando falamos de política, tratamos a questão como meramente factual ou informativa. Esquecemos da força tremenda que uma palavrinha que aprendemos logo no começo da graduação (aprendi na minha, pelo menos) tem: ideologia. E ideologia não se combate tão somente com dados. Não nos falta informação. Em tempos em que temos toda a informação do mundo literalmente na ponta dos dedos, dados e estatísticas se banalizaram e pouco efeito surtem sobre opiniões políticas. Pode desenhar, pode esfregar na cara que o político X ou Y é igualmente sujo, isto não bastará para mudar a visão de um eleitor convicto. É preciso alargar os significados do fazer político — do macro ao mais cotidiano — para poder abranger também o caráter ideológico que as posições políticas guardam. Criar outras vias de se fazer ouvir e de estar junto que não apenas informem, mas que formem, reformem e deformem. A política e a ideologia pouco têm de racional, se é que as manifestações verde-e-amarelas ainda não deixaram isso suficientemente claro com seus pedidos por ditadura ou por seus lamentos pelo não enforcamento da presidenta.

Violência e espetáculo: uma fotografia do contemporâneo

A mesa está cheia, a luz baixa, o rádio já cansado
— mas o novo homem não chega. Na tevê o homem de sempre
mostra suas garras, moendo ao vivo outros homens de sempre.
E você pergunta, como quem não quer resposta, se o novo homem
acaso vai usar seus superpoderes para ser ainda mais superpodre.
Poderíamos rir. Mas guardamos para outro tempo.

(Trecho de “Retrato n. 1”, de Tarso de Melo)

Nos primeiros dias do inverno de 2015, Band e Record presentearam o público com imagens ao vivo de uma execução policial narrada por Datena e Marcelo Rezende. Após uma perseguição de moto, filmada do alto dos helicópteros-abutres, um dos suspeitos (não se sabe do quê e tampouco importa) caído na calçada arremessa o capacete contra o policial — que se mantém sobre sua moto. O policial então dispara algumas vezes. Depois dispara a arma que um dos suspeitos carregava para justificar seus próprios tiros. Ao vivo, em rede nacional. Não interessa descrever mais detalhadamente do que isso a cena, mas ela choca parte da mídia mais alinhada à esquerda. Choca talvez uma inocência tardia que se preservava nos ideais do século passado, talvez choque a utopia tupiniquim de paz e direitos humanos efetivos.

Diariamente se tem duas opções (embora bastante semelhantes) ao fim da tarde para alimentar o próprio medo, mas, no mesmo movimento, assegurar a paz. Programas que cobrem ocorrências policiais com infra-estrutura e afetação de quem transmite uma Olimpíada. Os jogos vorazes do cotidiano. Assistimos à morte e a guerra urbana em HD do conforto de casa, como quem assiste a um episódio de Law & Order. A violência capturada, banalizada e comercializada entretém mais do que o cinema ou o teatro. Em tempos de ‘enclaves fortificados’, temos a certeza de que o perigo está na rua, do lado de fora dos muros do condomínio e das portas automáticas dos shoppings.

Estas imagens de barbárie se intercalam, nos intervalos comerciais, com propagandas inúmeras que remetem à segurança. O refrigerante que garantirá a união e a alegria familiar; o esportivo off-road no qual se pode atravessar a podridão da cidade com tração 4×4 — de preferência com vidros filmados para que não se tenha que encarar os pedintes nos semáforos. Quais são os limites para a transformação da brutalidade em produto? Nos jogos eletrônicos, a cidade transformada em reality show de sangue e batalha foi há anos anunciada por Manhunt (2003) e MadWorld (2009). Cabe uma menção especial ao seriado de TV britânico Black Mirror (2011).

Facilmente confundido com uma produção de ficção científica futurista, Black Mirror está mais para uma caricatura radicalizada do presente. Um retrato da distopia do contemporâneo. Me detenho especialmente sobre o episódio White Bear — segundo episódio da segunda temporada, para quem quiser ir atrás — (spoilers a seguir, cuidado). O criador da série, Charlie Brooker, nos apresenta a um conceito inovador em justiça e lazer: o parque de justiçamento (em breve próximo a você). Uma cidade cenográfica extremamente realista onde os visitantes pagam para participar de um sádico espetáculo. Um(a) criminoso(a) irá acordar sem memória nenhuma naquela cidade e irá ser lançado em uma perseguição na qual atores irão interpretar aliados e inimigos em uma implacável jornada cheia de ação e medo. O público acompanha o(a) detento(a) pelo parque registrando toda ação com seus celulares. Ao final do espetáculo, é revelado ao condenado que se trata de uma peça bizarra de entretenimento para o público e punição para si. É neste momento que os pagantes têm a oportunidade de hostilizar o criminoso até que ele seja retirado de lá pelos responsáveis (Estado? Setor privado? Ambos?) para que sejam feitos os preparativos para a encenação do dia seguinte: o cenário é reparado e a memória do sujeito é novamente apagada. E o espetáculo segue, diariamente, até que toda a pena seja cumprida.

As armas estão sobre a mesa: internet, registro e transmissão de imagens através de smartphones, drones, impressoras 3D, inteligências artificiais, e o que mais quiser. A tecnologia avança mais rápido do que nossos valores — sempre ultrapassados — podem acompanhar. Será que o ‘novo homem’, nas palavras de Tarso de Melo, irá usar seus superpoderes para ser ainda mais superpodre? O que faremos com todas as ferramentas que criamos? A cada dia as estruturas que sustentam as chaves de público-privado, natural-cultural, orgânico-artificial parecem ser golpeadas por um furor que engole tudo que se passa: as tecnologias digitais, as ideologias segregacionistas, o punitivismo, os elementos de nossos tempos giram em uma ciranda alucinante. Na velocidade de nossos dias, quem sai na frente são os sagrados direitos do consumidor.

Agamben diz que o contemporâneo é sempre obscuro para quem o experimenta. Como explicar então a escuridão do céu se estamos cercados por todas as partes por estrelas, galáxias e corpos luminosos? A luz desses corpos celestes viaja em direção aos nossos olhos a trezentos milhões de metros por segundo, mas suas fontes se distanciam de nós, com a expansão do universo, a uma velocidade maior ainda. A escuridão é uma luz em eterno porvir. Há um delay entre o que se passa e o que chega até nós, de forma que toda e qualquer constatação sobre o presente está sempre atrasada.

É preciso meter a cabeça no escuro ciente de que ele não é a ausência de valores ou de direcionamentos políticos. A não-política, a não-ética, se assim pudermos chamar esta forma de condução dos nossos tempos em que o mercado e o imperativo de gozo regem a forma como operamos a mídia e as tecnologias, são compostos sim por valores, políticas e éticas. Talvez estejamos diante de um ciclo de retorno à animalidade, regido por apenas dois extremos: o medo e o prazer. Daí que devemos estar preparados para a aprovação da redução da maioridade penal, entre outras legislações desfavoráveis às minorias, isto sendo possivelmente apenas o início de novos tempos com cara de velhos. É preciso alguma sobriedade para olhar para o escuro, pois as luzes não param de nos ofuscar. O tempo de esperar pelo ‘novo homem’ passou, é preciso matar o niilismo pois ele já está matando as travestis, as crianças, os negros, adeptos das religiões de matizes africanas. Se comecei com Tarso, termino também: “Mais cedo ou mais tarde, a conta viria. E — pelo corpo, pelo copo — não passou o bastante para esquecermos que ninguém virá pagar por nós”.

Da vergonha de ser homem

Fim de jogo. No vestiário, o assunto sempre começa com um “bom jogo, valeu Betinho, jogou muito”. Depois segue para alguma generalidade, o assunto do dia: “viu aquela repórter que foi assaltada ao vivo? Rapaz…”.Então, invariavelmente, e como se os assuntos anteriores apenas preparassem o terreno para isso, começa: “tem uns [sic] travestis que você tem que olhar muito bem para saber se é homem ou mulher, linda demais”. Consolo-me no fato de que aquilo definitivamente é manifestação tímida de alguma liberdade do desejo, mas que vem no vácuo de uma alta carga de machismo. Não pertenço àquele lugar. Vou para o bar.

Uma cerveja, quatro copos. “Estou esperando uns amigos”, explico ao garçom, que vê uma só boca em mim. Acendo um cigarro, um gole, outro gole. Escuto as conversas das outras mesas. “Hoje em dia estão assaltando até ao vivo, tá impossível”. OK. “Ouvi dizer que o Marcelo tava com os traveco ontem à noite…” “Hahahaha, aí não, né, Marcelo? Pô!” Mais do mesmo. Em todo lugar. Professores de história na praça para se manifestarem: contam do colega que no acampamento de greve foi se engraçar com uma travesti, que já o conduzia para um quarto de algum hotel barato. Chegaram para salvá-lo, “não é o que parece, amigo, isso daí é cilada, não vai não” “Ó, desculpa, viu? Ele tá bêbado, não sabe o que tá fazendo”. Os traveco isso, os traveco aquilo. Blá blá blá. Embrulha-me o estômago. “E se ele quisesse sair com uma travesti?”, “ele tava bêbado, blá, blá, blerg”. Vomitem o quanto quiserem, mas não queiram que eu engula.

No bar, passa uma moça de vinte e poucos anos. Baixinha, morena. De uma mesa com três homens, ouço latidos. Isto não é uma metáfora. Três homens adultos latindo para uma menina. E latem, latem, insistentemente. A quem não tem o que dizer só resta ladrar. E sou acometido por uma vergonha imensurável, uma vergonha de não pertencer ao vestiário, nem ao bar, nem a esta metade de povo que late e grunhe. Será que os cromossomos XY determinam a imbecilidade? Será que é este pedaço de carne enervada entre as pernas? Os pêlos no rosto? O que é que faz com que homens menospezem e objetifiquem uma mulher? O que é, por deus, que os faz latir?

A vergonha é tão grande que tenho vontade de levantar e parar cada mulher, cada homossexual, cada lésbica, cada travesti, cada trans e pedir perdão. Pedir perdão por ter nascido homem e compartilhar do mesmo substantivo com todos esses babacas, estúpidos e doentes. Mas eu não me ajoelho diante de ninguém, tampouco peço perdão. Pois sei que eu também objetifico, menosprezo e às vezes até lato — ainda que em português. E sei que não é por causa da genética, nem da anatomia, nem da psicanálise. É por causa da vergonha de sentir essa vergonha, tão maior que a outra, tão mais digna. A vergonha de destoar, vergonha de discordar. Vergonha covarde, que precisa ser combatida em cada oportunidade. E, ainda não tendo vencido esta vergonha, calo-me para não latir nem um segundo mais.

Alegres acidentes de percurso ou uma outra sensibilidade

Há momentos da vida que posteriormente vamos reconhecer como únicos. É possível — não afirmo com certeza — que todos momentos sejam únicos, mas alguns são mais únicos do que outros. Há ainda uma categoria especial dentre os momentos únicos, que é quando se reconhece a beleza do momento enquanto ele ainda está se desenrolando. E então, quando se tem a sorte de se identificar momento tão raro, inicia-se ingrata empreitada de registrar tudo que se passa, os sentidos se ampliam.

As pupilas se dilatam buscando apreender as tonalidades de cores, as luzes, as sombras, um sorriso, quem sabe. Os ouvidos se atentam ao distante barulho das ondas, entrecruzado pelos carros que passam de vez em quando na avenida vazia. A voz, ou as vozes, cada uma tão peculiar, com timbres que parecem dançar sobre os tímpanos. A pele tenta ao máximo registrar cada toque, cada brisa que sopra. O olfato desperta para o doce aroma de dama-da-noite, de perfume, de fumaça.

E neste momento, com a sensibilidade aflorada, no avesso — o dentro não mais como dobra do fora, mas dobra para fora —, não há mais nada. Não existe mais sujeito para querer, ou para se conter. Só há corpos que canalizam os diversos estímulos que recebem, meros resultados de uma complexa soma vetorial (e isto não é pouco). Só há um desejo: que a vida aconteça, que arrebata, e que ela não cesse.

Mas sempre cessa, apesar da força que tensiona para a infinitude. E se conclui com corpos tomando rumos distintos, corpos que voltam à erraticidade, buscando nada mais do que outros encontros em que possam, novamente, estarem vivos.