O rapto do poeta

Quando a gente tem saudade, sente a falta da pessoa ou daquilo que a pessoa nos traz? Insistir nesta separação consistiria num aborrecimento sem fim, além de uma perda de tempo. Eu, por exemplo, quando sinto saudade daquela ave, imediatamente também sinto saudade de seu ninho. O pé-direito alto e os poucos móveis naquela sala ampla faziam-na parecer imensa. Era a imensidão em que me perdi. Ou me encontrei. Insistir nesta separação consistiria num aborrecimento sem fim, além de uma perda de tempo.

Pela janela da varanda quase se podia tocar a copa das árvores, de tão próximas que ficavam. E através daquelas janelas, o mundo era muito mais colorido e cheio de sol. No sofá, deitado no colo daquela ave fugidiça, o tempo não passava. Os poemas que me lia pareciam durar, cada um, umas três encarnações. Nirvana sem drogas. Orgasmo sem penetração. Isto porque quando ela canta poemas, não há mais sala, não há mais varanda, não há mais copas de árvores, nem há mais tempo. Os ponteiros do relógio também param para ouvir o charme do seu falar, com língua presa, esses assoviados, e, de vez em quando, um leve riso em sua voz. Dispensaria o pão, a água, a cachaça e os prazeres do sexo para poder ter este pequeno paraíso num pote ou no bolso, a fim de sacá-lo a hora que fosse. Mas quis mais. A gente sempre quer mais, mesmo quando o que tem basta.

Quem se foi não foi só tu, ave engraçadinha e de voo lépido. Também se foi o seu ninho, a sala ampla, o sofá na sacada, o alimento refinado, as mãos suadas e o cheiro de manga. Também se foi o poeta em mim, que vê um mundo incrível na mais crua banalidade cotidiana. As pessoas clamam pelo poeta, batem em minha porta, e constrangido respondo que ele não está. Foi para além-mar, sequestrado por uma ave. “Quando ele retorna?”, perguntam-me, insensíveis ao rapto e ao aborrecimento que este me causa. Só querem saber da poesia, você vê. Mas toda poesia nasce de um olhar, do olhar de um poeta. Por isso, conto silenciosamente os dias até sua volta, como quem aguarda pelo par de óculos que devolverá a boa visão.

De fumaça, incêndios e cinzas

Certa feita, houve um incêndio em uma confecção têxtil clandestina. As mulheres que lá trabalhavam se encontravam em condições análogas à escravidão. Talvez “análogas” seja um eufemismo. Elas eram escravas, assim, com todas as letras. O incêndio começou discreto em um equipamento aos fundos da oficina. As três escravas que estavam no local tardaram a perceber o início do fogo, num transe induzido pelas doze horas de trabalho diárias. Elas trocavam poucas palavras, apesar de compartilharem o cárcere e o local de trabalho. A primeira a perceber o cheiro da fumaça que começava lentamente a invadir seu espaço de trabalho era a mais atenta das três e também a mais combativa.

Ela perguntou às outras duas colegas se elas sentiam também aquele sutil cheiro de fumaça, mas estas ignoraram completamente a primeira. Continuaram a costura de peças e mais peças de roupas, até que a mesma mulher menciona novamente a fumaça, desta vez sem nenhuma dúvida: alguma coisa está queimando. Mas, novamente, as outras duas fazem pouco caso da preocupação da colega de escravidão. A mulher mais atenta então engole em seco e se cala por não encontrar respaldo nas outras duas, apesar de ter para si a certeza latente da iminência de um incêndio.

Passado algum tempo, as três mulheres começam a tossir. Primeiro esporadicamente, depois com cada vez mais frequência e intensidade. A primeira mulher se inflama e grita com as outras duas apontando para o teto onde a fumaça corria e se espalhava pelo ambiente. As outras duas são forçadas a parar por alguns instantes seu desgastante trabalho e constatar que de fato o cômodo começava a ser invadido pela fumaça que vinha dos fundos da oficina. A segunda mulher finalmente admite a presença da fumaça e passa a conversar com a primeira sobre possibilidades de ação. A terceira parece permanecer indiferente.

A primeira escrava propõe que as três vão até a mangueira aos fundos da oficina, perto do possível foco do incêndio, para apagarem o incêndio antes que ele tome maiores proporções. Elas precisariam trabalhar juntas para acabar com o fogo.

Já a segunda, que também viu o perigo da possibilidade de um incêndio desastroso, propôs que fossem juntas na direção oposta à do incêndio, rumo à saída. Elas precisariam trabalhar juntas para arrombar a porta e rumar para sua liberdade.

A terceira se irritou com a fumaça e com as outras duas mulheres. Pegou um pano sobre a mesa e o encharcou com água de uma garrafa que carregava consigo. Enrolou então o pano molhado sobre o nariz e a boca e resmungou com as outras duas que precisava terminar o trabalho pois não queria ser ralhada pelo patrão. Sugeriu que as três acelerassem o trabalho para que, uma vez este estando concluído, pudessem decidir o que fazer quanto ao fogo.

Uma queria enfrentar as chamas e apagá-las antes que se alastrassem mais, outra queria fugir do cativeiro, e outra queria terminar o que precisava fazer antes de mais nada. A resolução da questão seria muito simples, não fosse o fato de que as três estavam acorrentadas entre si pelos tornozelos.

Revoltada, a primeira mulher se levantou e se dirigiu à porta que levava aos fundos da oficina. A corrente que a prendia às outras duas permitia apenas que ela parasse ao batente da porta e vislumbrasse as chamas que já haviam crescido consideravelmente, e se alastravam em direção ao seu local de trabalho. A mulher tossia fortemente por causa da fumaça e o fogo lhe enchia de pavor.

Desesperada, a segunda mulher tentou chegar até a porta de saída. Foi até onde as correntes permitiam, mas ainda estava a alguns metros da porta. Assim como a primeira mulher, esta também tossia bastante e estava apavorada, tentando lançar objetos contra a porta e gritando por ajuda.

Indiferente, a terceira mulher tentava ignorar a fumaça e o calor, e costurava tão rápido quanto podia para que pudesse terminar logo seu serviço e assim evitar aborrecimentos com o chefe mais tarde. Ela também tossia e transpirava, mas parecia acreditar que o fogo cessaria a qualquer momento e que tudo ficaria bem.

As duas primeiras retornaram ao centro da sala onde ficavam as máquinas de costura. Ambas hostilizaram a terceira escrava, que queria continuar trabalhando. Depois as duas primeiras passaram a se estapear e a gritar uma com a outra para provarem quem estava certa. Caíram no chão. Rolavam se engalfinhando. A terceira permanecia sentada trabalhando com a máquina de costura em ritmo acelerado, sentindo uns puxões nas canelas de vez em quando, onde as correntes estavam presas. O fogo avançava e já havia adentrado o cômodo. As paredes de madeira e as inúmeras sacolas de roupas e rolos de tecido faziam com que as chamas se espalhassem extremamente rápido.

A primeira e a segunda mulher rolavam no chão em luta. A primeira tentava enforcar a segunda com as correntes. A segunda arranhava e dava cotoveladas na primeira. Enroscaram-se tanto nas correntes que a terceira escrava foi puxada com força pelos pés e caiu do banco onde trabalhava. Conseguiu segurar, no entanto, sua máquina de costura, e mesmo caída continuou seu serviço. Não tardou até que as chamas tomassem as quatro paredes e o teto, aproximando-se cada vez mais do centro, onde duas escravas se atracavam e outra tentava, contra todas as adversidades, fazer seu trabalho.

Inevitavelmente, o fogo alcançou os três corpos maltrapilhos e acorrentados, consumindo-os de forma igual. Queimaram-se as três escravas, a mangueira, a porta, todas as máquinas de costura e todas as roupas que foram costuradas. Tudo teve o mesmo fim: cinzas.

O chato do português

Eu sempre fui o chato do português. Apesar de não ter tido muito interesse nas aulas de língua portuguesa, escrevo bem (ou, pelo menos, corretamente) desde que me lembro. Com literatura, a mesma coisa. Sempre achei um saco aprender sobre as escolas literárias, o romantismo isso, o barroco aquilo, número de versos aquilo outro. Tinha tudo para não saber e não gostar de escrever, e, surpresa! Olha só o que estou fazendo neste exato momento: escrevendo um texto sobre saber e gostar de escrever.

Talvez deva a capacidade e o gosto às leituras feitas na infância e na adolescência. Desenvolvi o gosto pela leitura e, ainda mais, pela escrita, coisa que aperfeiçoei com a prática. No entanto, cheguei ao ponto de, como anunciei no início deste texto, ser o chato do português. E pior: agora, terminando minha graduação, também percebi que estou virando o chato da academia. Além de me incomodar imensamente com textos mal escritos, também me revolto com os inúmeros deslizes metodológicos, éticos e científicos com os quais acabo por me deparar nesta reta final de curso. Ou seja, me matem antes que eu me torne professor universitário, pelo bem dos seus filhos. Ou não. Ser o chato do português (e da academia) é uma dupla maldição: sofro ao ler textos mal escritos e sofro com a discriminação dos colegas. “Aí, lá vem a polícia da gramática, a Gestapo da sintaxe” etc., etc., quando, na verdade, eu nem sei o que é sintaxe! Apenas sei como você não deve escrever, não me pergunte o porquê. É necessário que as pessoas entendam que ser o chato do português não é uma posição superior na qual me coloco, de um saber supremo ou qualquer coisa assim. Pelo contrário, é um lugar ingrato de extremo sofrimento. Vocês talvez nunca saibam o que é você não conseguir ler um texto e deixar de ter contato com seu conteúdo por simplesmente não conseguir se concentrar na leitura por causa de uma escrita ruim. Não sou algoz, sou uma vítima. Culpem Harry Potter, Artemis Fowl, O Pequeno Vampiro (e mais tarde Luis Fernando Veríssimo, Robin Cook e outros).

Quanto aos “clássicos”, os “livros de vestibular”, sempre os desprezei. “Senhora”, “O Cortiço”, “Iracema”: chato, chato, chato. Talvez não sejam livros ruins, mas dificilmente saberei, já que não terminei de ler quase nenhum. A própria obrigação de ler algo já mata todo o livro e o autor antes mesmo da leitura começar. Quantas pequenas crianças não devem ter pegado rancor da literatura por serem obrigadas a ler livros escritos um século atrás, cheios de palavras que nada dizem nos dias de hoje? Ou então ter que fazer leitura de jornal, pelo amor de deus. Tudo bem que as crianças precisam gradualmente se apropriar do mundo em que vivem, mas houve uma época da vida em que eu só queria ler Recreio, Nintendo World, Dicas e Truques para Playstation e gibis da Turma da Mônica. E não tem nada de errado nisso.

Assim como não tem nada de errado com as(os) adolescentes que leem Crepúsculo, Cidade dos Ossos, Divergente, Jogos Vorazes, Cinquenta Tons de Cinza ou seja lá o que andam lendo hoje em dia. Ainda que possamos, num primeiro impulso, subjugar obras deste gênero como menores, puramente comerciais e, no nosso melhor argumento, bobinhas, devemos frear nossos ânimos. Pois enquanto guardamos debaixo do braço nossos Dostoiévskis e Hemingways e diminuímos as leituras alheias, essas pessoas estão aprendendo a escrever. E talvez, num futuro próximo, eu não esteja sendo chato sozinho.

Aquela rua

Sabe, nunca mais fui à rua em que você morava. Aquela rua, de uma quadra só, mas que continha toda aquela gente morando em todos aqueles prédios com aqueles nomes de cidades da Europa. Aquela lá, que nas manhãs de sábado fervia. Aqueles velhos já bebiam naquele boteco chinês, onde outros velhos compravam o frango assado do almoço. Falando em almoço, algumas famílias já faziam suas refeições pós-praia naquelas mesas colocadas à calçada em frente àquela casa de massas. Sempre tive vontade de comer lá, a comida parece boa. É que lá é caro, né? Mas se fosse para comer lá, seria para comer na calçada, sob aquele sol fraco.

Aquele caminhão de verduras estaria, invariavelmente, fazendo as entregas naquela quitanda; os carros todos parados em fila dupla, como é de costume naquela rua; aqueles ratos de academia estariam lá, exercitando-se. Mas aquela parte da rua não tem tanta graça. Os ricos iriam pegar suas comandas ao entrarem naquela padaria, digo, empório, e pediriam alguma coisa bem metida a besta. O Extra estaria lotado, com aquelas filas imensas e apenas dois ou três caixas atendendo. Mas isso não é exclusividade das manhãs de sábado.

Só que nunca mais acordei naquela rua. Nem dormi. Nunca mais passei por lá desde que você se mudou. Não que eu evite-a, apenas não calhou até agora. Em breve precisarei ir àquela perfumaria, meu shampoo está acabando (ainda é aquele que comprei aquela vez) e lá é mais barato. Talvez eu esteja resistindo um pouco em voltar lá. É que sei, de alguma forma, que a rua que irei encontrar não será mais aquela.

Metáfora para nada

Quando o número de assaltos no entorno do campus da UNIFESP chegou a níveis insustentáveis, a Direção resolveu acatar algumas das ideias dos estudantes. Entre elas estava permitir a entrada e saída pelo portão dos fundos, que era mais próximo da avenida Conselheiro Nébias, onde passam os ônibus. Por azar, entre o campus e a Conselheiro havia um terreno. Por sorte, este terreno também era da UNIFESP. Abriram um portão em cada lado e, a partir de então, a imensa área de terra e cascalho era a rota predileta dos estudantes a qualquer hora do dia.

Logo em seguida trataram de construir uma passarela de concreto para que os estudantes não tivessem que seguir pelo solo irregular. Quando chovia, muitas poças se formavam e era difícil caminhar sobre o lamaçal. Começaram da entrada da Conselheiro, um quadrado de concreto por vez. Inicialmente, ninguém dava bola para o caminho que era construído, mas quando ele adquiriu extensão significativa (talvez pouco antes de chegar à metade do terreno) as pessoas começaram a utilizá-lo.

Esse comportamento produzia uma cena ao mesmo tempo comovente e patética, que tive o privilégio de assistir de camarote, do segundo ou do terceiro andar do campus, certa vez. Ocorre que a pessoa descia do ônibus, entrava no terreno e seguia pela passarela de concreto. No entanto, depois de uns quinze metros, a passarela bruscamente acabava e a pessoa era obrigada a seguir pelo solo irregular de terra e pedras. Tal cena me provocou intensa reflexão, era uma metáfora maravilhosa! Mas para quê? Eu não sabia dizer, mas tinha certeza da potência retórica e filosófica contida naquele comportamento reproduzido diariamente por centenas de pessoas. O problema é que até hoje eu não sei para o quê essa metáfora aponta.

Insisto que um dia ela servirá para alguma coisa. Caberá, definitivamente, em alguma conversa com os amigos de faculdade em uma mesa de bar, onde direi em resposta a algum relato profundo de um deles: “sim! É como as pessoas que caminham na passarela do terreno da UNIFESP e de repente se vêm forçadas a caminhar sobre o chão irregular porque a passarela simplesmente acabou na metade do percurso!” e todos, atordoados pela genialidade de minha colocação, dirão coisas como “é! É exatamente isso!”. O Pedro provavelmente vai entrar em êxtase, levantar, me cumprimentar, dizer que é meu fã. Depois, vai aproveitar que já está de pé e buscar outra cerveja. É, vou guardar a metáfora para o Pedro.

Boulevard

— É engraçado, tudo isso… Uma mesa, duas cadeiras, uma cerveja, dois copos, nada mais, é que…

— O quê?

— Não sei se é apropriado dizer, mas… Eu estive com a sua prima em uma situação com tudo isso. Só com isso.

— Eu tinha uma leve impressão de que vocês costumavam sair juntos, mas eu não tinha certeza. Então vocês saíam, né? Menino esperto.

— Sim, na época em que eu e você nos conhecemos. Você lembra? Quando eu fui na casa da sua família? Nós estávamos indo para uma festa. Mas só saímos duas vezes, aquela noite e um outra, num bar. Um  tanto parecido com esse.

— Hum… Que legal. E por que não houve um terceiro encontro?

— Bom, eu acho que simplesmente não aconteceu. Nós nos divertimos juntos, nos conhecemos melhor e tudo o mais, mas nós não nos beijamos.

— E então você desencanou?

— Acontece que eu tinha ouvido de um passarinho verde que ela tinha gostado de mim, quando nos conhecemos, através de amigos. Então eu chamei ela para sair porque, bom, ela é uma bela mulher e parecia interessante e aquilo tudo. E ela estava a fim de mim. Mas não aconteceu nada. Quero dizer, não é como se não tivesse acontecido nada, eu gostei de sair com ela nas duas ocasiões, nós só não nos beijamos.

— Então o beijo é só um detalhe pra você?

— De alguma forma… Antes do beijo acontecer, nada vai mudar. É como um crescendo que eventualmente chega em um platô, que é quando não há nada mais a dizer, nenhum movimento a fazer, apenas esperar pela hora certa. Às vezes a hora certa não vem. Mas depois do beijo, é como se um mundo inteiro se abrisse diante de você, um mundo cheio de possibilidades e incertezas. Toda aquela tensão e o mistério se vão e tudo pode acontecer. O beijo é caos.

— Acho que não há mais nada a dizer.

O vira-lata

A praça Jerônimo de La Terza pode ser considerada o centro do bairro Rádio Clube, em Santos. O bairro, assim como os demais que compõem a Zona Noroeste, difere consideravelmente das áreas mais próximas da orla. Os condomínios que desafiam o terreno arenoso e escalam aos céus cedem lugar a casas térreas de alvenaria — nas palafitas, as casas são de madeira, sobre o rio e o lixo. Os comércios e restaurantes cada vez mais gourmetizados dos bairros nobres dão lugar a lojas e bares simples. Outra cidade, com ares de interior.

Eu esperava por minha colega de estágio, que havia se perdido nas ruas da Santos desconhecida que se apresentava aos poucos a nós. Ouço um ruído próximo e me viro para olhar o que era. Um vira-lata vasculhava sacolas de lixo que estavam no chão atrás de comida. Encontrou um osso de frango, que mastigou até quebrá-lo. Pensei em intervir: sabia que ossos de frango não devem ser dados aos cachorros? Eles podem ferir as entranhas do bicho. Mas vá lá, o animal devia estar com fome. Encontrou mais dois ou três ossos que também quebrou com os dentes e engoliu. A esta altura, cheguei à conclusão de que o risco do vira-lata machucar seu estômago, o que, imagino, seria feio, não é mais importante que a fome. E o bicho parecia faminto, continuou a busca e encontrou um pedaço de pizza.

Enquanto revirava as sacolas de lixo, espalhava embalagens de plástico e de isopor que eram arrastadas pelo vento abafado do lugar que mais parecia um enclave de realidade alternativa no território caiçara, tão familiar para mim. As embalagens libertadas pelo focinho do bicho atravessaram a rua e sumiram de vista. O vira-lata me viu observando sua refeição, com seus olhos brilhantes e comoventes. Começou a vir em minha direção lentamente, o olhar subalterno e tocante. Parou perto, olhou para a avenida, parecia que pensava no que fazer agora. Virou-se novamente para mim.

— Olha, com licença, posso falar com você, na moral? Não sou bandido, não vou roubar você. Mas eu tenho fome, cara. Ali na Nossa Senhora de Fátima tem um Bom Prato, tem como você me ajudar?

E eu que não falo língua de cachorro, senti algo estranho enquanto o cão me fitava e latia coisas que nunca saberei. Ignorei. Ele desistiu de se comunicar comigo e seguiu seu caminho, o rabo entre as patas. Vai entender.