Correntes de ar

“Quando me removeram os grilhões, fiquei paralisado e assim permaneci por algum tempo. Por todos ambicionada, a liberdade a mim, enfim, havia chegado. Meus pés, contudo, continuavam cravados ao chão como raiz de erva daninha que se instala nos mais inóspitos dos terrenos.

Era como se eu houvesse desaprendido a andar. Em todo aquele tempo de cativeiro, tudo o que mais desejei era me ver livre de minhas amarras. Mas agora que era chegada a hora, parecia que, por não mais ser proibido, ir já não fosse tão interessante assim. Abri e fechei minhas mãos, como se só a partir daquele momento eu as tivesse. Massageei os pulsos: os vergões vermelhos e ardidos denunciavam que ali estivera ferro pesado, de solda grossa, a comprimir minha circulação.

Estranhei a leveza dos braços. O vento que soprava até os fazia balançar. Mas o vento também fazia arder as feridas recém descobertas. As algemas apertadas machucavam, sim. Contudo, com o passar do tempo acabei por me habituar a elas. Enquanto seguravam meus pulsos, eles não ardiam, não; e eu não podia nem tinha que ver essas lesões; e eu me sentia mais seguro, mais próximo ao chão, como se fossem os grilhões um reforço à gravidade.

Nos poucos e limitados movimentos que eu realizava, as correntes produziam música. E nos meus pequenos gestos criei uma canção. Agora tudo que eu ouvia era o silêncio melancólico e o sopro do vento no pé do ouvido. Seu assobio parecia me dizer para ir. Mas para onde?! Tudo o que conheço é o aqui, o peso das correntes e minha canção metálica.

Agora era essa leveza assustadora, esse silêncio que atordoa, e o mundo todo a se insinuar diante de mim, fazendo o aqui, que antes era tudo, tornar-se apenas um ponto insignificante qualquer.”

***

Fechei o livro. Tomei o último gole de café. Continuo depois, disse para mim mesmo. Meu cachorro estava sentado diante de mim a me fitar. Levantei, busquei sua coleira e me direcionei à porta. Ao perceber que iria passear, o cachorro pulou alegre, latiu e abanou o rabo. Parecia sorrir enquanto eu passava a corrente ao redor de seu pescoço.

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Esta entrada foi postada em poemas.

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