Retrovisor

retrovisor

Por mais que eu fuja do sol que nasce ao leste
Os raios de luz inundam meu Fusca azul
Eu sigo sempre ao norte, mas no fim parece
Que rodei o mundo e voltei ao sul

Aonde quer que eu vá, vou ao redor de mim
E o futuro é um pretérito sem fim
Então como é possível se seguir em frente
Se a estrada do presente o passado asfaltou?

“Os objetos no espelho estão mais próximos do que parecem”

 

Foto de Raísa Peixoto e Júlia Colturato.

Esponja

Para minha vó Nice, mais um de tantos.

ainda enche de água os olhos

pousá-los sobre este sorriso
[agora só por fotos]
porque logo vêm cheiros
e depois vêm lembranças
que represadas pedem passagem
 
o peito aperta
o choro escorre
talvez meu coração
seja uma esponja
 
que depois de seca recolhe
gota após gota
seu amor em memórias
 
[até que se encharque e de novo precise
apertar-se]
 

Eclipse solar (Ícaro)

o espelho na parede
tua imagem presa nele
parece pintura
sem moldura

e é por teu reflexo
que te admiro
para não cegar meus olhos
como quem com um negativo
mira um eclipse solar

e se eu de repente me viro
é porque sinto o perigo
desse teu sorriso
assim tão perto
do meu

mas aos poucos minhas
pupilas se contraem
diante de tua claridade
eu tomo fôlego
crio coragem
e voo

contorno a lua
e me lanço em tua direção
— que minhas asas de cera
não derretam aqui
tão longe do chão

Correntes de ar

“Quando me removeram os grilhões, fiquei paralisado e assim permaneci por algum tempo. Por todos ambicionada, a liberdade a mim, enfim, havia chegado. Meus pés, contudo, continuavam cravados ao chão como raiz de erva daninha que se instala nos mais inóspitos dos terrenos.

Era como se eu houvesse desaprendido a andar. Em todo aquele tempo de cativeiro, tudo o que mais desejei era me ver livre de minhas amarras. Mas agora que era chegada a hora, parecia que, por não mais ser proibido, ir já não fosse tão interessante assim. Abri e fechei minhas mãos, como se só a partir daquele momento eu as tivesse. Massageei os pulsos: os vergões vermelhos e ardidos denunciavam que ali estivera ferro pesado, de solda grossa, a comprimir minha circulação.

Estranhei a leveza dos braços. O vento que soprava até os fazia balançar. Mas o vento também fazia arder as feridas recém descobertas. As algemas apertadas machucavam, sim. Contudo, com o passar do tempo acabei por me habituar a elas. Enquanto seguravam meus pulsos, eles não ardiam, não; e eu não podia nem tinha que ver essas lesões; e eu me sentia mais seguro, mais próximo ao chão, como se fossem os grilhões um reforço à gravidade.

Nos poucos e limitados movimentos que eu realizava, as correntes produziam música. E nos meus pequenos gestos criei uma canção. Agora tudo que eu ouvia era o silêncio melancólico e o sopro do vento no pé do ouvido. Seu assobio parecia me dizer para ir. Mas para onde?! Tudo o que conheço é o aqui, o peso das correntes e minha canção metálica.

Agora era essa leveza assustadora, esse silêncio que atordoa, e o mundo todo a se insinuar diante de mim, fazendo o aqui, que antes era tudo, tornar-se apenas um ponto insignificante qualquer.”

***

Fechei o livro. Tomei o último gole de café. Continuo depois, disse para mim mesmo. Meu cachorro estava sentado diante de mim a me fitar. Levantei, busquei sua coleira e me direcionei à porta. Ao perceber que iria passear, o cachorro pulou alegre, latiu e abanou o rabo. Parecia sorrir enquanto eu passava a corrente ao redor de seu pescoço.

Relógio no criado-mudo

nonde outrora tu repousavas
hoje se acumulam teus pertences
junto a tantos objetos
do apartamento
que aos poucos perde
os últimos resquícios
de tua morada aqui

o relógio no teu criado-mudo
continua diligente
seu tiquetaquear
indiferente à tua ausência
tique-taque
os perfumes sobre o móvel
tique-taque
os bichos de pelúcia
segurando caixas de leite
tique-taque
as lágrimas pingando sobre o assoalho
lavando aos poucos a dor da perda
e deixando apenas a saudade
tique-taque
tique-taque
tique-taque

Aluga-se

Passei por onde você não trabalha mais
E na fachada havia
Uma faixa que dizia
“Aluga-se para fins comerciais”

Passei por onde nos beijávamos a sós
No delírio de uma noite fugaz
Mas lá estavam outros casais
E nenhum deles era nós

Passei por onde você desfila contumaz
E recebe sua dose de apreço
Vi então que não te reconheço
Destes seus carnavais

Passei pelo seu caminho, mas foi em vão
Ainda assisti pelo retrovisor
À distância você perder a cor
E, então, sumir na contramão

Ex-combros

eu não quero ser testemunha
da sua glória e prefiro
desdenhar e duvidar
da sua felicidade
eu não sei se desejo
mostrar o quão forte sou
ou se então é melhor
me fingir de morto na
tentativa de te
fazer sentir culpada
pelo estrago e
com isso obter alguma
vingança por menor
que ela seja
mas finjo não me
importar enquanto
você bombardeia meu
lar sacudo a
poeira dos ombros
e brinco entretido
com esses escombros