O coração é um mapa

A Mansão acabou. A república onde tantos amigos moraram nos últimos anos volta a ser mais uma casa antiga escondida em um bairro nobre de Santos. Até que Nicoly, Gabi, Juka, Neto e outros se mudassem para lá, a casa — apesar de seu tamanho — sempre passou despercebida por mim, oculta atrás de enormes trepadeiras. Com o tempo se tornou local de constantes reuniões de pessoas maravilhosas e artistas locais igualmente incríveis. Não raro encontrei ou fui apresentado a alguém que eu tinha a certeza de já conhecer. Logo chegaríamos à conclusão de que, mesmo sem às vezes saber o nome um do outro, conhecíamo-nos “da Mansão”. As festas eram as mais insanas possíveis. Os improvisos musicais ao redor da fogueira, os papos sem pé nem cabeça, os fins de farra fumando na sala assistindo videoclipes na TV, os despertares violentos e confusos em colchões, sofás, poltronas.

Sempre tive dificuldade de dizer quantas pessoas moravam na Mansão e quem eram. Os moradores mudavam de tempos em tempos e sempre havia visitas que ficavam dias ou semanas. Quando se tirava o cadeado — sempre aberto — do portão e se adentrava na propriedade, nunca se sabia quem se encontraria. Era espaço de incertezas e caos, mas também de surpresas e bons encontros. Mas 2018 começa com o fim dessa república e com a despedida de pessoas e de um lugar que compõem o folclore de um certo universo acadêmico, cultural e social em Santos. Certamente compõem o meu universo. Para lá talvez se mude uma família bem normal, que nem imagina o que aquelas paredes já viram e ouviram, que não ousa supor que a laje da garagem é uma ótima opção em um pique-esconde e que beijar um boneco gigante de um soldado real inglês era um ritual obrigatório. Volta a ser apenas uma casa, embora todos que a frequentaram enquanto Mansão certamente passarão pela frente e verão os fantasmas boêmios e o espírito jovial e caótico que agora habita a construção. A menos que comprem a casa e o terreno do lado para subir um prédio. Ou pior, uma farmácia. Isso é tão Santos.

Não é a primeira vez que vejo um local que costumo frequentar e onde me sinto bem deixar de ser. Quando terminamos a faculdade e o Pedro foi embora, eu não sabia se sentiria mais saudade dele ou de seu apartamento. Ainda não sei, na verdade. Gosto do conjunto. Ali se encontrava amigos. Independente de quem estivesse presente, o apartamento inspirava confiança e todos conversavam abertamente sobre seus desejos, medos e ascos. Na verdade, sentíamo-nos tão à vontade na casa do Pedro que, após elevado o nível de álcool no sangue, a diversão era tirar os objetos da casa do lugar — só para irritar o dono da casa: limões na pia do banheiro, forninho em cima da cama, bananas na gaveta de cuecas: a imaginação e a idiotice eram o limite. A geladeira também era livre para os convidados, desde que o Pedro não soubesse. Sempre havia alimento para balancear a quantidade de bebida ingerida. A casa do Pedro, que, diferentemente da Mansão, não tinha nome, foi palco de alguns dos momentos mais intensos da minha vida. Não sei se ele tem noção disso. Certa vez passei a noite lá, sozinho. Eu, alguns litros de cerveja, um maço de cigarro e uma playlist de blues. Foi quando eu aprendi como era estar só.  E é um aprendizado que levo para a vida toda. Tomar café da manhã vendo o mar enquadrado na janela da sala como uma pintura viva é uma das cenas que jamais esquecerei. Eu juro que ainda vou alugar aquele apartamento. Mas o Pedro tem que vir no pacote.

Cerca de um ano atrás, o terreno onde ficava a escola onde estudei por doze anos foi comprado, e o colégio demolido. Essa doeu bastante de ver. Vinha visitando a escola uma vez ou outra desde que terminei o ensino médio, até porque era meu local de votação (nota mental: descobrir onde vou anular o voto este ano). O Afonso Pena nunca mudou. Mesmo depois que reformaram, continuava absolutamente a mesma coisa. Aquele estilo velho e desleixado de escola que você não encontra nos Objetivos e Universitas da vida. Era colégio raiz e intervalo era mesa de pebolim e tênis de mesa, além do futebol que, à época, eu não gostava tanto e nem era hábil o suficiente para jogar. Quando eu era criança, minha turma plantou várias mudas de sei-lá-o-quê em um canteirinho junto ao muro da escola. As plantinhas, aos trancos e barrancos, aguentaram firmes até o fim. Agora tudo não passa de uma pilha de escombros e ainda não há indícios do início da construção do prédio gigantesco que devem instalar lá. Mas prefiro as ruínas do que o prédio: é mais fácil de imaginar a barulheira do recreio e as corridas olímpicas para chegar primeiro na fila da cantina quando batia o sinal.

Tantos outros são os lugares — públicos ou privados — que serviram de cenário para memórias as mais diversas, mas que, por um ou outro motivo, não me são mais acessíveis ou não mais existem. Uma das únicas coisas de que lembro das aulas de Neurociências é que a memória é necessariamente afetiva. E que isso tinha alguma coisa a ver com a amígdala, mas não vem ao caso. É assim que nos lembramos de um passeio que fizemos com a família quando éramos crianças, mas não conseguimos preservar a memória de um almoço qualquer feito na semana passada. O afeto é o formol da lembrança. É o que a mantém viva. É a eletricidade que grava e que preserva os dados em um pen drive ou em um cartão de memória. E também é pela via do afeto que mapeamos nosso território, que pode ir do nosso bairro até outro continente. Lembrar de determinado lugar porque seu amigo morava lá, ou porque você sempre bebia até cair naquela casa, ou porque beijou alguém de quem gostava naquela mureta vazada, porque terminou com seu/sua ex ali naquele banco… Pense em qualquer lugar de sua cidade que você conheça. Agora pergunte-se por que você o conhece. Certamente lhe virá à mente alguma experiência ou história sobre esse lugar. E sem qualquer dúvida haverá alguma emoção vinculada a essa lembrança. Então, que as emoções sejam intensas o bastante para manterem vivos na memória os lugares, mesmo quando estes são riscados do mapa.

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Retrovisor

retrovisor

Por mais que eu fuja do sol que nasce ao leste
Os raios de luz inundam meu Fusca azul
Eu sigo sempre ao norte, mas no fim parece
Que rodei o mundo e voltei ao sul

Aonde quer que eu vá, vou ao redor de mim
E o futuro é um pretérito sem fim
Então como é possível se seguir em frente
Se a estrada do presente o passado asfaltou?

“Os objetos no espelho estão mais próximos do que parecem”

 

Foto de Raísa Peixoto e Júlia Colturato.

Esponja

Para minha vó Nice, mais um de tantos.

ainda enche de água os olhos

pousá-los sobre este sorriso
[agora só por fotos]
porque logo vêm cheiros
e depois vêm lembranças
que represadas pedem passagem
 
o peito aperta
o choro escorre
talvez meu coração
seja uma esponja
 
que depois de seca recolhe
gota após gota
seu amor em memórias
 
[até que se encharque e de novo precise
apertar-se]
 

Eclipse solar (Ícaro)

o espelho na parede
tua imagem presa nele
parece pintura
sem moldura

e é por teu reflexo
que te admiro
para não cegar meus olhos
como quem com um negativo
mira um eclipse solar

e se eu de repente me viro
é porque sinto o perigo
desse teu sorriso
assim tão perto
do meu

mas aos poucos minhas
pupilas se contraem
diante de tua claridade
eu tomo fôlego
crio coragem
e voo

contorno a lua
e me lanço em tua direção
— que minhas asas de cera
não derretam aqui
tão longe do chão

Correntes de ar

“Quando me removeram os grilhões, fiquei paralisado e assim permaneci por algum tempo. Por todos ambicionada, a liberdade a mim, enfim, havia chegado. Meus pés, contudo, continuavam cravados ao chão como raiz de erva daninha que se instala nos mais inóspitos dos terrenos.

Era como se eu houvesse desaprendido a andar. Em todo aquele tempo de cativeiro, tudo o que mais desejei era me ver livre de minhas amarras. Mas agora que era chegada a hora, parecia que, por não mais ser proibido, ir já não fosse tão interessante assim. Abri e fechei minhas mãos, como se só a partir daquele momento eu as tivesse. Massageei os pulsos: os vergões vermelhos e ardidos denunciavam que ali estivera ferro pesado, de solda grossa, a comprimir minha circulação.

Estranhei a leveza dos braços. O vento que soprava até os fazia balançar. Mas o vento também fazia arder as feridas recém descobertas. As algemas apertadas machucavam, sim. Contudo, com o passar do tempo acabei por me habituar a elas. Enquanto seguravam meus pulsos, eles não ardiam, não; e eu não podia nem tinha que ver essas lesões; e eu me sentia mais seguro, mais próximo ao chão, como se fossem os grilhões um reforço à gravidade.

Nos poucos e limitados movimentos que eu realizava, as correntes produziam música. E nos meus pequenos gestos criei uma canção. Agora tudo que eu ouvia era o silêncio melancólico e o sopro do vento no pé do ouvido. Seu assobio parecia me dizer para ir. Mas para onde?! Tudo o que conheço é o aqui, o peso das correntes e minha canção metálica.

Agora era essa leveza assustadora, esse silêncio que atordoa, e o mundo todo a se insinuar diante de mim, fazendo o aqui, que antes era tudo, tornar-se apenas um ponto insignificante qualquer.”

***

Fechei o livro. Tomei o último gole de café. Continuo depois, disse para mim mesmo. Meu cachorro estava sentado diante de mim a me fitar. Levantei, busquei sua coleira e me direcionei à porta. Ao perceber que iria passear, o cachorro pulou alegre, latiu e abanou o rabo. Parecia sorrir enquanto eu passava a corrente ao redor de seu pescoço.

Relógio no criado-mudo

nonde outrora tu repousavas
hoje se acumulam teus pertences
junto a tantos objetos
do apartamento
que aos poucos perde
os últimos resquícios
de tua morada aqui

o relógio no teu criado-mudo
continua diligente
seu tiquetaquear
indiferente à tua ausência
tique-taque
os perfumes sobre o móvel
tique-taque
os bichos de pelúcia
segurando caixas de leite
tique-taque
as lágrimas pingando sobre o assoalho
lavando aos poucos a dor da perda
e deixando apenas a saudade
tique-taque
tique-taque
tique-taque

Aluga-se

Passei por onde você não trabalha mais
E na fachada havia
Uma faixa que dizia
“Aluga-se para fins comerciais”

Passei por onde nos beijávamos a sós
No delírio de uma noite fugaz
Mas lá estavam outros casais
E nenhum deles era nós

Passei por onde você desfila contumaz
E recebe sua dose de apreço
Vi então que não te reconheço
Destes seus carnavais

Passei pelo seu caminho, mas foi em vão
Ainda assisti pelo retrovisor
À distância você perder a cor
E, então, sumir na contramão