Esponja

Para minha vó Nice, mais um de tantos.

ainda enche de água os olhos

pousá-los sobre este sorriso
[agora só por fotos]
porque logo vêm cheiros
e depois vêm lembranças
que represadas pedem passagem
 
o peito aperta
o choro escorre
talvez meu coração
seja uma esponja
 
que depois de seca recolhe
gota após gota
seu amor em memórias
 
[até que se encharque e de novo precise
apertar-se]
 

Eclipse solar (Ícaro)

o espelho na parede
tua imagem presa nele
parece pintura
sem moldura

e é por teu reflexo
que te admiro
para não cegar meus olhos
como quem com um negativo
mira um eclipse solar

e se eu de repente me viro
é porque sinto o perigo
desse teu sorriso
assim tão perto
do meu

mas aos poucos minhas
pupilas se contraem
diante de tua claridade
eu tomo fôlego
crio coragem
e voo

contorno a lua
e me lanço em tua direção
— que minhas asas de cera
não derretam aqui
tão longe do chão

Correntes de ar

“Quando me removeram os grilhões, fiquei paralisado e assim permaneci por algum tempo. Por todos ambicionada, a liberdade a mim, enfim, havia chegado. Meus pés, contudo, continuavam cravados ao chão como raiz de erva daninha que se instala nos mais inóspitos dos terrenos.

Era como se eu houvesse desaprendido a andar. Em todo aquele tempo de cativeiro, tudo o que mais desejei era me ver livre de minhas amarras. Mas agora que era chegada a hora, parecia que, por não mais ser proibido, ir já não fosse tão interessante assim. Abri e fechei minhas mãos, como se só a partir daquele momento eu as tivesse. Massageei os pulsos: os vergões vermelhos e ardidos denunciavam que ali estivera ferro pesado, de solda grossa, a comprimir minha circulação.

Estranhei a leveza dos braços. O vento que soprava até os fazia balançar. Mas o vento também fazia arder as feridas recém descobertas. As algemas apertadas machucavam, sim. Contudo, com o passar do tempo acabei por me habituar a elas. Enquanto seguravam meus pulsos, eles não ardiam, não; e eu não podia nem tinha que ver essas lesões; e eu me sentia mais seguro, mais próximo ao chão, como se fossem os grilhões um reforço à gravidade.

Nos poucos e limitados movimentos que eu realizava, as correntes produziam música. E nos meus pequenos gestos criei uma canção. Agora tudo que eu ouvia era o silêncio melancólico e o sopro do vento no pé do ouvido. Seu assobio parecia me dizer para ir. Mas para onde?! Tudo o que conheço é o aqui, o peso das correntes e minha canção metálica.

Agora era essa leveza assustadora, esse silêncio que atordoa, e o mundo todo a se insinuar diante de mim, fazendo o aqui, que antes era tudo, tornar-se apenas um ponto insignificante qualquer.”

***

Fechei o livro. Tomei o último gole de café. Continuo depois, disse para mim mesmo. Meu cachorro estava sentado diante de mim a me fitar. Levantei, busquei sua coleira e me direcionei à porta. Ao perceber que iria passear, o cachorro pulou alegre, latiu e abanou o rabo. Parecia sorrir enquanto eu passava a corrente ao redor de seu pescoço.

Relógio no criado-mudo

nonde outrora tu repousavas
hoje se acumulam teus pertences
junto a tantos objetos
do apartamento
que aos poucos perde
os últimos resquícios
de tua morada aqui

o relógio no teu criado-mudo
continua diligente
seu tiquetaquear
indiferente à tua ausência
tique-taque
os perfumes sobre o móvel
tique-taque
os bichos de pelúcia
segurando caixas de leite
tique-taque
as lágrimas pingando sobre o assoalho
lavando aos poucos a dor da perda
e deixando apenas a saudade
tique-taque
tique-taque
tique-taque

Aluga-se

Passei por onde você não trabalha mais
E na fachada havia
Uma faixa que dizia
“Aluga-se para fins comerciais”

Passei por onde nos beijávamos a sós
No delírio de uma noite fugaz
Mas lá estavam outros casais
E nenhum deles era nós

Passei por onde você desfila contumaz
E recebe sua dose de apreço
Vi então que não te reconheço
Destes seus carnavais

Passei pelo seu caminho, mas foi em vão
Ainda assisti pelo retrovisor
À distância você perder a cor
E, então, sumir na contramão

Ex-combros

eu não quero ser testemunha
da sua glória e prefiro
desdenhar e duvidar
da sua felicidade
eu não sei se desejo
mostrar o quão forte sou
ou se então é melhor
me fingir de morto na
tentativa de te
fazer sentir culpada
pelo estrago e
com isso obter alguma
vingança por menor
que ela seja
mas finjo não me
importar enquanto
você bombardeia meu
lar sacudo a
poeira dos ombros
e brinco entretido
com esses escombros

Fim

o calorão não cessa
o despertador não perdoa
carros seguem com pressa
não sou liberado pela patroa

a fatura não atrasa
o concurso não se adia
o relógio não dá uma pausa
e o calendário impõe sempre outro dia

a rotina atropela
os compromissos empurram
o dia-a-dia acotovela
depois todos se juntam
(pra me dar uma surra)

já não sei se é crueldade
ou se é uma forma de cuidarem de mim
mas na indiferença daquilo que não para
mal dá pra lembrar que chegamos ao fim